O furto de carro popular e o mercado de peças são o mesmo assunto visto de dois lados. Um Onix furtado raramente é vendido inteiro: é desmontado, e cada peça vira anúncio. Entender o que sai do carro, quanto vale e como é vendido ajuda a proteger o seu carro e a não comprar peça de origem ilegal.
O tamanho do mercado
A indústria de autopeças faturou R$ 265,6 bilhões em 2025, segundo o Sindipeças, e o mercado de reposição (a peça que vai para a oficina, e não para a fábrica) responde por quase um quarto disso. A frota é de mais de 38 milhões de automóveis com idade média perto de 11 anos: carro velho troca mais peça.
Na internet, o segmento lidera: uma gestora de lojistas no Mercado Livre apontou acessórios automotivos como a categoria número 1 em itens vendidos, com 47% do volume, à frente de casa e móveis. É um canal enorme e, na maior parte, legal. É também onde peça de desmanche irregular tenta se misturar.
As peças mais visadas
Pelo que aparece nas ocorrências policiais e nas operações do Detran-SP, o desmanche mira o que é caro, rápido de tirar e fácil de vender:
| Peça | Por que é visada | Ordem de grandeza para repor |
|---|---|---|
| Farol | Cada geração tem o seu; o de LED custa caro | Farol original de Onix 2020–2025: cerca de R$ 2.000 a unidade |
| Retrovisor | Sai em segundos, principalmente com regulagem elétrica e sensor | R$ 500 ou mais, dependendo do carro |
| Catalisador | Tem platina, paládio e ródio; o pó interno é vendido por quilo | Reposição a partir de R$ 1.000 |
| Rodas de liga leve | Jogo vale caro e não tem número de série | Varia com o aro |
| Airbag e central multimídia | Alto valor, procura constante em oficinas | Centenas a milhares de reais |
Para dar escala: a "cesta" de farol, lanterna, retrovisor e pastilhas de um sedã popular fica entre R$ 3.250 (Onix Plus) e R$ 3.920 (HB20S), pelos preços apurados pela imprensa especializada em março de 2026.
A Lei do Desmanche
Desde 2014 a Lei 12.977 obriga a empresa de desmontagem a se registrar no Detran, a informar cada veículo desmontado num banco de dados e a etiquetar as peças reutilizáveis com a origem. Na audiência que avaliou a lei na Câmara, em 2015, o dado citado foi de queda de 30% nos roubos de veículos em São Paulo no primeiro ano.
Na prática, o Detran-SP faz operações constantes: em junho de 2025, com a PM, vistoriou 16 pontos na capital e lacrou ou fechou 11; um deles funcionava disfarçado de loja de autopeças. As irregularidades mais comuns são a falta de alvará e a ausência do selo de rastreabilidade na peça.
Como conferir se a peça usada é legal
- Peça de desmontagem legal tem etiqueta com o número de registro e o veículo de origem. Sem etiqueta, é peça sem origem.
- Preço muito abaixo do usado de referência, em anúncio sem loja identificada, é sinal.
- Airbag, cinto e freio usados são proibidos de revenda: item de segurança não pode voltar ao mercado.
- Se estiver comprando o carro, e não a peça: retrovisor de cor diferente, farol novo de um lado só e parafuso com marca de ferramenta contam uma história. Pergunte.
Por que isso importa para o comprador de usado
Um carro que foi furtado, desmontado parcialmente e recuperado volta ao mercado com peças trocadas, às vezes sem registro. Ele pode ter o boletim de furto na base (e depois a baixa por recuperação), e o histórico aparece na consulta pela placa. Se o carro que você está olhando tem farol e retrovisor novos "porque quebraram", vale conferir se houve ocorrência.
Perguntas frequentes sobre peças e desmanche
Peça de desmanche é sempre ilegal?
Não. Desmanche registrado no Detran vende peça usada legal, com etiqueta de origem. O ilegal é a desmontagem sem registro, de carro furtado.
Quais peças são mais furtadas?
Farol, retrovisor, catalisador, rodas de liga leve, airbag e central multimídia, pelo que aparece nas ocorrências e nas operações de fiscalização.
Como sei se o carro usado teve peça trocada por furto?
Peça nova de um lado só e histórico de boletim de furto (mesmo com recuperação) são os sinais. O boletim aparece na consulta pela placa.